domingo, 10 de maio de 2009
terça-feira, 2 de setembro de 2008
PAGINAS QUE TEMPO RASGA - Livro 2008

Quando me predispus a escrever este livro eu não tinha um assunto pré-definido, apenas deixei que as memórias e assolações que vagueiam a minha mente, se materializassem em forma de letras e construísse a figura de um artista plástico um tanto frustrado com as alegrias e decepções vividas no decorrer da sua trajetória.
Os cenários retratados não poderiam ser outros, senão os muitos lugares por onde passei e as grandes experiências dramáticas que compartilhei com aqueles figurantes e atuantes no palco da vida. A cidade de Lisboa, aqui relatada, é o palco central, pois foi nela onde me desenvolvi como cidadão do mundo e vivenciei os momentos mais lastimáveis e felizes da minha existência.
Muitos se identificarão com as experiências do personagem, mas qualquer semelhança será um mero acaso, já que esse livro é fictício.
Primeiro capitulo - PAGINAS QUE TEMPO RASGA

Auto retrato do artista
Noite de sábado, o meu apartamento se encontra às escuras. Observo o cigarro a queimar lentamente sobre um velho cinzeiro que fora me oferecido há muito tempo. A luz que vem de fora cria sombras sobre os moveis. Olho demoradamente para elas e começo a relembrar partes da minha vida, como quando era apenas uma criança. As horas passam e sinto-me sufocado entre quatro paredes! Hoje ninguém me telefonou e o relógio de século badala um tic-tac repetitivo que me deixa impaciente. Um dia destes deixo de dar corda nele e acabo com essa agonia. Olho pela janela e sinto que a cidade esta calma, apenas alguns carros rompem o silencio ao percorrerem a calada da noite com seus viajantes despreocupados, fato que me leva a pensar no ocorrido do dia anterior: naquele mesmo cruzamento, uma jovem de apenas 19 anos fora assassinada a sangue frio por dois indivíduos, que a tentaram assaltar! Meu Deus, apenas 19 anos, com uma vida pela frente, mas tivera um fim tão trágico e chocante! Aquela imagem ficou na minha mente durante todo dia, por isso posso lembrar de cada detalhe com clareza, mas isso não me ajuda em nada agora, pois preciso dormir e por mais que tente não consigo. Acho que preciso pensar em alguma coisa positiva, para aquietar o meu espírito que se encontra tão perturbado e abatido.
Por vezes incontáveis tento idealizar algo novo, sem muito sucesso, pois tudo já está demasiado gasto. Minha mente fica turva, cada um de meus pensamentos se desmaterializa e volta ao pó. Podia começar a pintar uma tela ou a escrever um poema, mas as únicas cores que consigo pegar é vermelho e negro. Quanto às palavras, mantenho me suspenso entre a dor e o sofrimento, que não desejo a ninguém. Por que será que a morte permanece como um enigma sem solução? Afinal de contas, o que fazemos aqui ou qual o fundamento da existência? Tenho consciência que todo mundo se interroga sobre estas questões, mas não obtém nenhuma resposta plausível; outros simplesmente silenciam suas perturbações e se refugiam em um submundo de noitadas proporcionadas pelo entorpecimento do álcool e do sexo casual. À noite se vestem de prado e durante o dia escondem as cicatrizes que tanto os perturbam. Um sorriso forjado é o quanto basta para enganar a morte, ademais são simplesmente palavras sobrepostas umas as outras, que ninguém mais as compreendem.
EXCENTRICIDADE
Já passa das duas da manha. O tempo permanece completamente estático, de forma que uma monotonia entediante invade o meu apartamento sem nem mesmo me pedir licença; na tentativa inútil de afastá-la eu tento ler um pouco, mas não tenho nenhum animo! Olho para a parede e vejo uma tela que pintei na semana passada. Uma pequena aquarela que retrata um recanto de Lisboa muito visitado por turistas: o elétrico com destino ao bairro da Graça, que da característica típica a cidade. A pintura ficou bem expressiva, então refleti um pouco e deduzi que poderia obter uns bons trocados com a venda do quadro. Esperei o dia clarear, levantei-me com os primeiros raios de sol e me dirigi a Rua Augusta, a fim de conseguir um bom preço por ela. Fiquei horas para vendê-la, mas por fim um turista inglês a comprou por trinta euros. Confesso que a minha sorte é que eu posso contar com a ajuda de uma das minhas irmãs. É ela que paga a renda do meu apartamento, caso contrário, há muito que estaria a viver na rua. Estou que nem Van Gogh, que por anos viveu apenas com a ajuda que seu irmão Theo lhe dava. Já percebi que não consigo viver em comunidade, sou demasiado solitário, lunático e um sonhador incorrigível. Nada mais do que isso! Com os trinta euros fui ao supermercado e comprei alguns mantimentos essenciais, mas pouco mais do que sete euros me sobraram. A vida dos artistas é assim mesmo; desculpem o plural, somos uns mal-afortunados, sempre vestidos de negro, mas as pessoas ignoram o porquê de nos vestirmos assim. Muitos pensam que é para estar de acordo com os padrões estabelecidos pela moda, mas a verdade é bem diferente, afinal de contas, geralmente, as aparências enganam. Na realidade nós não temos é como comprar roupas novas. O preto serve-nos de uma espécie de camuflagem, então não é de se admirar que minhas camisas, calças, casacos e as meias sejam pretas. Só o meu cabelo é que é loiro com algumas mexas brancas para contrastar, de resto tudo em mim é triste.
Enfim, quarenta e nove anos e a vida pouco ou nada me deu. Trabalhei como guarda noturno numa escola do ministério da educação por aproximadamente 10 anos, mas quando pedi demissão, não recebi coisa alguma. Ainda bem que fiz grandes amizades e assim não foram dez anos de completa inutilidade. Refletindo um pouco melhor agora, acho que fiz mal, pois tomei uma decisão um tanto precipitada, mas, vindo de mim, já era de se esperar, afinal nunca paro para pensar e por isso, quando caio na real, já é tarde demais. Muitos chamam isso de inconseqüência, mas eu acho que é viver o momento mesmo que tenha conseqüências desastrosas. A única vantagem de não se trabalhar para o estado é que nos tornamos livres de um infeliz ordenado, isto é, se formos apenas funcionários de segunda categoria, como era o meu caso.
Quando paro para pensar o que realmente queria da vida, chego à conclusão de que queria mesmo era ser rico e estou ciente de que não sou o único a pensar assim. Excentricidade minha? Que seja então, melhor do que ser hipócrita e não expor meus verdadeiros desejos e sentimentos, devido a dogmas religiosos ou paradigmas estabelecidos por grupos sociais para beneficio próprio como: “só os pobres herdarão o reino dos céus”. Isso me causa risos. Que ponto de doutrina é este que ainda rende milhões as igrejas? Tenho plena consciência que esse sonho me é excêntrico, mas o que posso fazer, já que aqui estou e a minha vida não passa disto? Entrego-me todas as noites aos meus devaneios e viajo até casa dos meus sonhos, numa colina com vista para mar e imagino uma leve brisa de maresia a envolver meu rosto. Sonhos... Nada mais que sonhos! Lembro-me que quando era adolescente, o sonho de ser um artista plástico reconhecido era tudo que eu tinha e durante anos a fio eu lutei constantemente, sem nenhum sucesso. Nenhuma porta se abriu e a minha face já se encontrava desfigurada de tanta frustração. Sempre que entrava numa galeria de arte, a resposta era sempre a mesma: infelizmente já temos artistas suficientes, ou quem sabe, volte daqui a uns anos, pode ser que venhamos a precisar. Nem se quer interessavam-se para ver uma de minhas telas. Imagine só o que é ouvir isto durante uma vida inteira! E o pior, sempre as mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos sorrisos e olhares disfarçados. Parece que existe uma associação, aonde se reúnem para ensaiar e decidir as desculpas esfarrapadas que nos dirão. Esquecem do senso de percepção que obtemos com as lastimáveis experiências vividas. É inacreditável, que sempre que falo com eles, me venham com a mesma conversa mole.
Como não os consegui convencer, fui tentar em outros lugares apropriados, mas que não deixam de ser freqüentados por pessoas sensíveis, que admiram a arte real, não pelas sugestões dela extraídas, mas sim pela inspiração dos artistas e não por um protótipo pré-definido pelos proprietários de galerias. A maioria pensa que pintar é copiar uma tendência, mas acho que a isso se da o nome de fotografia, não? Entre os novos lugares que escolhi para expor as minhas telas, estão os famosos cafés, livrarias e restaurantes. Por falar em restaurantes, uma vez deixei algumas telas expostas em um que fica na baixa, na Rua Garret, mas tive um tremendo azar. O proprietário faliu e dez das minhas telas, dentro de uma linha cubista, ficaram lá retidas. Tentei retira-las, mas infelizmente todos os bens que havia dentro do restaurante ficaram na mão de um banco para irem a leilão, então desisti e nunca mais lá voltei.
Tive melhor sorte numa livraria, que fica na baixa – chiado em Lisboa, precisamente na Calçada do Sacramento que vai dar no Largo do Carmo. Geralmente andava a procura de livros de segunda mão, já que são bem mais baratos e de preferência, os relacionados à literatura francesa.
Dias antes estive na Calçada do Conde e por lá comprei vários livros, A saga dos Rougon-Macquart de Emile Zola e um outro de Balzac, mas a leitura de Balzac era demasiadamente romântica e não fazia o meu gênero. Sendo assim aproveitei a oportunidade de ali estar para adquirir algumas autobiografias. Confesso que elas me fascinam de tal forma que não consigo resisti-las. Assim sai de lá com tantos livros que mal conseguia carrega-los, mas foi ao passar pela Calçada do Sacramento que algo inesperado aconteceu: quando pela primeira vez lá entrei, a minha intenção era de poder adquirir alguns livros por um preço módico, porém reparei que o proprietário tinha paixão por pintura e escultura. Em cada recanto do estabelecimento havia pinturas e esculturas de grande beleza, pertencente a vários artistas com renome e outros anônimos. O proprietário deveria ter os seus setenta anos, era calvo, de baixa estatura, vestia se bem e no olhar percebia-se certa perspicácia, bem típico português. Enquanto dava uma olhada pelas estantes e pinturas, ele gentilmente pegou os meus livros e os colocou sobre o seu balcão. Diante de tamanha delicadeza eu senti necessidade de retribuir. Elogiei seu espaço comercial e disse-lhe que era artistas plástico. Desse primeiro contato brotou uma grande amizade e para resumir já está com bem mais de sete anos que expus meu trabalho por lá. Sua sabedoria me cativou de tal modo que era difícil evitar uma passagem por lá de vez em quando. Ele me lembrava muito o Ambroise Vollard, um grande marchand que contribuiu com o desenvolvimento da arte ao lançar vários artistas como Picasso, Van Gogh, Paul Cézanne, Rouault e Gauguin.
Mesmo quando estava na América Latina trocávamos idéias por correspondência e no meu ultimo regresso a Lisboa, trouxe comigo algumas telas, que ele expusera pela ultima vez no seu espaço comercial. Já que a sua idade avançada o impediu de prosseguir com as suas atividades comerciais, assim também como o desenvolvimento dos meios de comunicação, que se tornou um grande empecilho para os pequenos comerciantes, afetando assim todos eles. Com o grande avanço da tecnologia as pessoas passaram a ler menos e buscar mais entretenimento na internet; o globalismo se propagou e juntamente com ele, houve um grande aumento no comercio chinês, que devido aos seus preços baixos, atraiam mais pessoas, mesmo com baixa qualidade das suas mercadorias.
Hoje em dia a galeria do meu velho amigo se encontra fechada o letreiro escrito por cima da porta: “Livraria e Galeria Campelo” balança ao ritmo do vento, se desgastando juntamente com a cidade. Nunca mais soube nada a cerca dele e partir daí a minha vida entrou em declínio, devido à falta que a sua força e motivação me traziam. Assim como eu, muitos outros artistas sofreram, pois ele era um porto seguro para nós.
Segundo capitulo - PAGINAS QUE TEMPO RASGA

Atualmente ando sempre com pouco dinheiro que mal dá para comprar um pincel, todos eles estão velhos e gastos. As minhas tintas se acabaram; só me restou uma pequena caixa de aquarelas e foi assim que tudo começou: fiz a minha primeira exposição de pintura na Vila Beatriz na cidade de Ermesinde conselho de Valongo. Aquela exposição me fez acreditar numa possível carreira artística, pois das vinte telas expostas vendi 12. Nada mau para um pintor desconhecido, que chegou a ter no jornal da região uma pequena coluna em sua homenagem. Os anos passaram e pouco ou nada mudou. A minha vida se resume a isto! O resto dela são apenas memórias sobrepostas umas as outras. Às vezes tento idealizar novos vôos na esperança de que a vida me possa sorrir, mas o desânimo em mim é constante! Por mais que tente, nada de extraordinário acontece, mas em comparação com os demais homens, ate que não posso me queixar da vida, pois já estive em vários países, falo quatro idiomas, embora não saiba escreve-los. Na minha terra dizem que sou um analfabeto; em outro país, um intelectual. Na América do Sul, por exemplo, o indivíduo que fala mais de um idioma é levado muito em conta; ao contrário da Europa, que já não vê encanto em mais nada. A conclusão disto tudo é na verdade um disparate, mas o ser humano é mesmo assim e quanto a isso nada tenho a declarar, já que cada cultura tem o seu modo de julgar. Em Portugal tal como no resto do mundo as pessoas têm o grande defeito de imortalizar seus artistas somente após sua morte, ou então se o artista sai do país e faz carreira lá fora, em uma terra longínqua. Isso tudo é uma grande ironia. É necessário povoar terras estranhas para poder torna se, aos olhos de todo mundo, um herói nacional. Surgem então as festas, homenagens, condecorações e com um pouco de sorte o artista torna se embaixador das nações unidas, recebendo, da noite para o dia, seu primeiro título.
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Recordo-me também, que noutros tempos quando era bastante religioso, sempre que viajava uma multidão de irmãos vinham se despedir e ao meu regresso, faziam festinhas de boas vindas, mas tudo mudou! Após o meu divorcio, no momento em que mais precisei de um ombro amigo, um por um virou-me as costas, porque eu não me encaixava mais nos seus padrões sociais. Foi como se eu tivesse uma doença contagiosa, fato que me fez parar e repensar sobre valores pré-estabelecidos e por mais que repense não consigo encontrar uma resposta para certos comportamentos; o que me leva a um estado de constante questionamento. Não consigo enxergar o que foi que deu errado ou a exatidão do ponto em que falhei, coisas da vida! Acho que é melhor mudar de assunto, pois todas essas interrogações sem respostas me levam a um estágio impreciso de insatisfação e, mais uma vez, de total desanimo. Ah, mas antes de iniciar meu próximo raciocínio, acho importante ressaltar que um, apenas um único irmão permaneceu sempre ao meu lado. Um irmão vindo de terras estranhas em busca de algo que lhe faltava e veio para Portugal tentar uma vida melhor e vivia na linha de Sintra para os lados do Cacem, juntamente com um grupo de brasileiros. A maioria deles clandestinos, mas que aos poucos conseguiram se legalizasse, devido a acordos entre as duas nações. Ele trabalhava no açougue do Carrefour. Era um moço humilde e de boa índole, talvez por ser temente a Deus e raramente perder um culto. Sempre que podia ele acompanhava a mocidade para congregarem em outras cidades ou vilas portuguesas. Acompanhei todo seu progresso espiritual e juntos enfrentamos as adversidades da vida; éramos praticamente inseparáveis e nos reuníamos por horas a fio, a conversar sobre a obra de Deus. Ele permaneceu aqui por dez anos e por fim voltou para o Brasil, casou com uma bela jovem descendente de Japonês, abriu um negócio bem lucrativo e esta à espera do seu primeiro filho. Às vezes falo com ele por MSN ou telefone e fico a pensar o quanto sofreu, mas mesmo assim ele tem uma disposição invejável para enfrentar as adversidades impostas pela vida. Será que algum dia vou conseguir ter força, para fazer frente a tudo que me acontece?
Nós homens somos feitos de uma massa imaleável, seguindo padrões impostos por uma sociedade corruptamente formada. Durante toda a nossa vida escondemos a nossa verdadeira identidade, mostrando ao mundo um lado inexistente, que seja aceito. Ainda vivemos numa era que a palavra tabu esta sempre evidencia nas nossas vidas. Não podemos ser nós mesmos, nem podemos dizer livremente o que pensamos, um homem tem que manter a sua postura, ser macho, ser bruto, ser juiz mesmo que tenha que julgar sem causa. Pobre do homem que escreve um poema, que canta ou dança numa praça. É crime ter sentimentos e expressa-los em público, pois podemos ser tachados de loucos. Se isso serve de consolo, com o tempo que perdemos na tentativa de sermos quem não somos, aprendemos a perceber que o orgulho e os preconceitos nada mais são do que ignorância em não saber lidar com o desconhecido; aprendemos que, apesar das diferenças, somos constituídos da mesma matéria orgânica, o que nos torna IGUAIS!
Por falar em tabus, comportamento e sentimentos reprimidos, antigamente era comum um indivíduo casar-se com uma jovem de menos de 17 anos, mas hoje em dia se tal acontece é caracterizado de pedófilo. Mais uma vez nos deparamos com padrões sociais pré-estabelecidos, embora todo mundo seja consciente da atração de uma jovem por indivíduos mais velhos ou vice-versa. Sempre foi assim na historia da humanidade e sempre será. Quando dizem que estamos a evoluir, não duvido, mas existem tantas coisas inexplicáveis e retrógradas impostas por uma sociedade que vejo essa evolução de forma unilateral e um tanto inatingível. Acredito num comum acordo entre ambos, no amor ou ate mesmo numa paixão casual, mesmo que tais relações venham a esfriar com o tempo. O grande perigo de tentar forçadamente a nos encaixar nesses padrões, é a frustração de ver sua vida se desmoronar bem diante dos seus olhos, pois neste presente momento, certamente, há milhares de casais a divorciarem-se. Então, para quê tanto murmúrio? Ou porque será que nos deixamos levar por tais imposições? Tabus e nada mais que tabus imposto por aqueles que se julgam capazes de ir alem de seus limites. Desculpem-me o plural no masculino, mas aonde nos leva tudo isto? Será que nós homens, verdadeiramente, aparentamos ser o que somos? Durante toda a minha adolescência vivi num colégio católico, cheio de regras e tal como as regras, mais uma vez, os malditos tabus. Tínhamos hora para tudo: dormir, acordar, comer, brincar, trabalhar e dai por adiante. No que diz respeito à sexualidade, é simples: ela não “existia” e devido a sua “inexistência”, por ser considerada uma necessidade primordial, muitos jovens buscaram na homossexualidade a satisfação das suas necessidades; outros se desenvolveram recatado. Atualmente, parte desses jovens são pais de família, com bons empregos e boas esposas que jamais suspeitaram que o homem que com que ela se deita, uma vez teve possíveis afinidades. Pela experiência que tive no colégio fiquei consciente que 60 por cento dos homens tem essa tendência, devido ao desejo reprimido, mas eles seguem o caminho que dizem ser o que leva a tão mencionada salvação. Tememos a reação do mundo inteiro, escondemos atrás de leis e ordens que nos sufocam. Queremos liberdade, mas tememos anarquia, de forma que acabamos por aceitar os padrões impostos por aqueles que estão acima de nós. Todas as leis existentes têm um só fim: dominar. Quem se afasta da lei, imediatamente é excluído da sociedade. Por causa disso, entregamo-nos de corpo e alma a religião ou a política, embora saibamos que qualquer crente que preze a sua doutrina, jamais envereda por outros cominhos. Tudo que é demasiado racional anula a existência divina, dando sempre prioridade a lei do homem, a qual o céu e o inferno não fazem parte. Até os anos setenta os sacerdotes apregoavam nas igrejas as barbaridades vindas do lesto, afim de que o seu rebanho não se desviasse das suas veredas. Que saudade tenho, de quando os “lobos” comiam as criançinhas. Esta, é a mentalidade dos que deturpam a própria lei para seu beneficio, caracterizando as mentes mais frágeis, porem o ser humano ama a ordem e sem ela fica a deriva, por esse motivo não nos importamos em ter que pagar impostos, sermos escravos dos que estão acima de nós, mas ate quando? Já que um dos países que se diz ser o mais democrático de todos é na verdade uma farsa. A finalidade da democracia consiste em liberdade de opção, respeitando a opinião de cada um e vivendo em harmonia, entretanto, se alguém preferir uma outra ideologia contraria a deles, imediatamente é perseguido. Tudo isso acaba por se tornar um paradoxo de contradições, mas quem sou eu para por em causa essa mesma democracia? Entre os milhões, que conseguem visualizar essa dissonância, eu serei a que menus se destaca, pois o que eu penso pouca ou nenhuma importância tem. Não sou político, nem clérigo, sou apenas um cidadão a deriva, que povoa essa nossa aldeia global e na minha concepção de artista, a palavra vida e a palavra morte simbolizam apenas uma linha reta, ou na menor das hipóteses, uma linha totalmente curva, onde muitos se perdem, ao possuírem visão delimitada do que há a sua frente. Tudo quanto tenho que executar eu o faço da melhor forma possível, para ter como me aproximar da perfeição, mesmo que seja nas mínimas coisas. Isso me ajuda a conhecer os meus limites. A vida para mim consiste em atos, mesmo que sejam pequenos e singelos, afinal de contas tudo o que se cultiva e se semeia no aqui e agora, são os frutos do que vamos colher no futuro. Se observarmos os índios, perceberemos que eles têm as suas próprias leis, que nos são totalmente estranhas, mas que fazem todo sentido para forma de organização tribal em que estão habituados a viver e pela sua filosofia de vida eles são capazes de viver, matar e ate mesmo morrer, sem que um desses atos sejam denominados “crime”.
Por falar em índios. Faz alguns anos que estive no Paraguai na cidade de Asuncion, no qual convivi com vários residentes, dentre eles alguns índios guaranis. Quando estava por lá senti que no ar havia desconfiança, insatisfação e uma ditadura disfarçada de democracia. Os antigos ditadores se vestem hoje de cordeiros, o país está totalmente estático, parado no tempo e ninguém há entre eles que eleve a voz. Não há trabalho, nem recursos e os edifícios de grande beleza estão degradados, só a repartição publica é que sobrevive, o demais é uma cidade em decadência, onde um povo amável vive entre o fio da navalha. Este foi o povo que tentou ao longo da sua historia erguer-se, mas devido à cobiça, acabaram por ser saqueados. O Paraguai é o exemplo de um entre tantos países que se diz democrático, afinal contas a democracia esta na moda, mas é lamentável que aqueles que têm poder nada façam. A verdade é que tudo aquilo que vemos e não o que esta escondida por trás de uma camuflagem histórica, então fale-me da verdade, para que eu seja verdadeiro, fale-me do que é racional e eu educarei os que anseiam por ser educados. A doutrina dos homens consiste em amar e ser amado. Mas ate que ponto o amor é verdadeiro? Se oscilarmos entre dar e receber, o amor nada mais é do que um enigma que devasta por dentro. Amamos porque não queremos estar sós, mas a grande maioria dos homens fabrica o seu próprio amor, mediante as suas aspirações. Um capricho insaciável e devorador é tudo o que os envolve na sua mas pura e visível essência humana.
Há um privilegio em ser rico e se alguém diz que a riqueza não trás felicidade, não se iluda, a riqueza não é felicidade, mas sim a rampa de partida para muitas felicidades. Se nos contentarmos com um miserável ordenado, que tipo de homens nós somos, senão hipócritas? Todo mundo anseia por ser rico, ou possuir algumas riquezas, ter uma bela mansão, dois ou três carros numa garagem bem espaçosa, viajar por lugares exóticos, vestir-se bem, comer do bom e do melhor, fazer academia ou ate mesmo uma cirurgia estética e por fim, ter sempre dinheiro no bolso para realizar os seus desejos e caprichos. Ao longo da minha vida deparei-me com pessoas que afirmaram categoricamente que o dinheiro não trazia felicidade, algumas delas viviam em decadência, fazendo me recordar uma musica Brasileira, cuja letra diz o seguinte: “Tu queres sair do gueto, mas o gueto esta dentro de ti”. Tudo isto não é mais do que o produto, do meio e do espaço que se vive, a cultura e falta dela leva qualquer individuo a acomodar-se com a sua miséria interior. Como é possível que o ser humano desista tão facilmente dos seus sonhos? Culpo em parte a mídia, que nos bombardeia constantemente com as ideologias capitalistas da classe dominante e com uma diversidade de fictismo tão imensurável, que causa inveja a muitos cineastas. Cada um de nós tornou se escravo do próprio sistema de modo que à imagem que julgamos ser nossa, pertence aos nossos opressores. Ignoramos e não temos coragem de debater tais assuntos, talvez dentro de vinte ou trinta anos o ocidente desabe da noite para o dia, mas numa sociedade materialista ou consumista, o que importa é o conforto. Os dias passam assim a correr e quando paramos para pensar um pouco sobre a vida, acabamos por dizer as mesmo às coisas. Que legado deixo para meus filhos e netos? Essa é uma questão que sempre embala o meu sono turbulento. Fecho os olhos e tento adormecer em meio ao silencio da noite, que geralmente tranqüiliza o meu espírito inquieto e me leva por dentre as veredas da solidão em direção a casa dos meus sonhos, ate que a luz de um novo e almejado dia se rompa sobre meu quarto e me desperte para prosseguir a minha caminhada.
RIO TEJO
Sete de janeiro e o céu está bem límpido. Sei que preciso sair para procurar trabalho, mas como tenho poucos estudos, sinto que vou ter um dia complicado pela frente. A minha idade também não me ajuda em nada e eu constato que pouco ou quase nada esta ao meu favor. Hoje em dia a preferência de trabalho é dos jovens. Devido à inexperiência deles a mão de obra se torna bem mais barata e os mais velhos são vistos como uma despesa a mais, um tanto desnecessária. Eles só dão “trabalho” em vez de trabalhar. É o que a maioria dos empregadores pensa.
Tomo o metro com destino ao rossio e entro no café Nicola. Os empregados encontram-se numa constante azáfama e é sempre assim na primeira semana do mês. Hoje ate que tive sorte, pois consegui uma mesa bem na esplanada, localizada estrategicamente com vista para a praça. Peço um café e um copo de água; retiro de um dos meus bolsos um pequeno bloco onde registro meus apontamentos e começo a desenhar o que me rodeia.
Mais uma vez sinto que a arte está no meu sangue e percorre as minhas veias de forma tão intensa, que sinto uma plenitude constate invadir o meu ser. É difícil explicar essa sensação com palavras, mas é como se só o ar que respiro não fosse o suficiente para me manter vivo. Observo a cidade num constante rodopio e subitamente vejo passar um amigo de longa data, o Pedro. Ele repara em mim e logo vem ao meu encontro. Cumprimenta-me enquanto se assenta mesmo a minha frente e pede ao garçom um café. Conversamos um pouco sobre coisas corriqueiras por aproximadamente vinte minutos. De um momento para o outro seu telemóvel toca, ele atende e diz que tem que sair com urgência, para entregar um projeto de arquitetura lá para os lados do Poço do Bispo. Antes de sair ele me da um cartão com seu contato e pede-me que lhe ligue a fim de marcarmos um encontro para discutirmos um possível projeto artístico em uma de suas obras arquitetônicas.
Fico por ali mais quinze minutos e aproveito para dar uma olhada nos anúncios do “Noticias da Manhã”, retiro alguns apontamentos e vejo que uma empresa precisa de telefonistas. Por incrível que pareça é mesmo aqui no rossio. Em algum ponto do anuncio, vejo que as inscrições estão marcadas paras às nove horas. Automaticamente verifico as horas no meu relógio de pulso e percebo que ainda há tempo para tentar a sorte. Chamo o garçom e pago o café. Saio e atravesso a praça do rossio, mas reparo que o estabelecimento ainda esta fechado, contudo, algumas pessoas já se encontram a porta. Fico entre os primeiros e penso para comigo mesmo: acho que foi o Pedro que me trousse um pouco de sorte.
Enquanto espero, a minha mente viaja e, sem que me aperceba, me vejo a pensar em voz alta. Sorriu de me mim mesmo e penso que devo ter tenho algum problema psicológico: Deus meu, devo estar é a ficar louco! Tento conter-me para não transparecer o meu sorriso, mas sei intimamente que é devido à pressão a que todos nós nos submetemos atualmente. Olho para trás de mim e reparo que a fila vai se estendendo por vários metros, enquanto uma nuvem negra aos poucos sobrecarrega o ar. Vejo que nos dias de hoje todo mundo se encontra desesperado a procura de uma oportunidade de trabalho e nestes últimos anos a situação tem estado cada vez mais difícil. Parece que todo mundo decidiu vir viver nos grandes centros urbanos e a cidade de Lisboa não foge a regra. Enquanto espero, sobre mim se abate um silencio mórbido de forma que a minha mente fica completamente perturbada e o que me apetece mesmo é desistir, mas só faltam poucos minutos para a entrevista e vale a pena tentar mais uma vez, afinal de contas, como já estou aqui, não vai me custar nada. Já vai para mais de um ano que ando nesta vida e infelizmente todas as portas permanecem fechadas. Acredito que a minha idade avançada torna ainda mais difícil a possibilidade de encontrar um bom trabalho. Os que me observam diariamente até já dizem que o que eu quero mesmo é não fazer nada e que não falta trabalho para quem realmente quer trabalhar, mas quando falam comigo usando estes termos a minha resposta é bem direta: - Tem algo de bom para eu fazer? Se não tem é melhor cuidar da sua própria vida.
Sem respostas eles encolhem os ombros e se afastam para nunca mais voltar. São homens carregados de palavras, mas sem ações como a maioria dos seres humanos, ou devo dizer desumanos? Não sei bem o que acontece dentro dessas mentes “racionais”, pois no fundo não consigo diferi-los dos demais animais irracionais, quando cometem essas atrocidades. Vivem suas vidas de forma monótonas e tristes, passam todo tempo reparando-nos outros, a fim de terem algo para falar e não se dão conta da inutilidade das suas existências, que persiste em lhes manter no vácuo onde só conseguem escutar o seu próprio eco sinistro. Criaturas amargas desde o nascer até ao por do sol, à noite ficam a sós e adormecem sempre desesperados ou ansiosos por um novo dia a fim de espalharem suas flechas venenosas sobre o primeiro que cruzar pelos seus caminhos.
O ponteiro do relógio marca nove horas da manhã, as portas do estabelecimento se abrem e um por um, conforme a sua vez de chegada, vai entrando. Num dos balcões encontra-se um moço com os seus vinte poucos anos, vestindo um terno azul escuro e gravata com tons de rosa. Ele gentilmente me faz sinal e manda-me sentar. Preencho uma ficha, respondo algumas perguntas que já me habituei a responder e diz-me para aguardar alguns dias. A entrevista não durou nem quinze minutos e como não tenho mais nada para fazer, vou ate a Rua Augusta que fica a dois passos daqui.
Enquanto perambulo por lá percebo que estão a retirar os enfeites de Natal e só ai reparo que este ano que passou fizeram uma linda decoração. Vale a pena vir ao centro da cidade durante a noite para ver os efeitos da quadra natalícia, pois o espetáculo de luzes é admirável. Parece que a cidade ganha outra vida. Muito antes de chegar ao fim da rua também vejo que os andarilhos, camelôs e artistas de rua começam a chegar e montar as suas bancas. Outros se a sentam no canto da calçada com pequenas aquarelas retratando recantos de Lisboa. A grande maioria deles vive em quartos alugados e outros acabam por viver na rua, devido as suas economias serem tão escassas que mal dão para pagar um quarto e a cota exigida pelo município todos os meses para poderem vender suas obras na rua. Os magistrados não conseguem enxergar que os artistas são ícones de grande beleza. Sem eles a Rua Augusta seria apenas mais uma rua comercial. A única coisa que poderia atrair os turistas seria apenas o grande arco que faz divisa com a praça do comercio. Eu próprio cheguei a passar essas mesmas privações por algum tempo, a minha sorte foi ter conseguido um emprego que perdurou por cerca de 10 anos.
Olho ao meu redor e não vejo nenhum conhecido. Chego ao fim da rua, próximo ao arco que dá par a Praça do Comercio e mesmo a minha frente vejo que árvore de natal com cerca de trinta metros também já esta a ser desmontada. Caminho pela praça e me dirijo para o cais para ver o movimento do rio Tejo. Hoje ele corre lento, bem lento e é aqui que passo a maior parte de meu tempo, observando os barcos que entram e saem com destino a Almada e ao Barreiro.
Do Rio vem uma leve brisa trazendo consigo o vento do norte. Embora estejamos no meio do inverno, as chuvas não caíram com abundancia este ano. Já o ano que passou foi um ano de seca, tudo leva a crer que tem a ver com o efeito estufa ou talvez seja devido aos vários incêndios que ocorreram em todo país durante o verão. Não consigo entender como um país tão pequeno como o nosso, tenha tantos incêndios. Será que as pessoas estão a ficar loucas ao ponto de se auto-destruírem desta maneira tão cruel e ao mesmo tempo tão lenta? Sinto tristeza quando ligo o radio ou a televisão e vejo o meu país a perder o que de melhor tem, a sua fauna. A Caminhar assim não sei aonde isto vai parar, pois ora faz frio ora faz calor e tudo mudou. Como Camões escreveu num dos seus poemas: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Se é que o ser humano se preocupa em mudar mesmo alguma coisa! Recordo-me dos invernos rígidos quando eu era mais jovem. Adorava ouvir o bater repetitivo da chuva sobre as vidraças e os estrondos contínuos dos trovões que encadeavam constantemente o meu quarto. Pela manhã o frio era de cortar a navalha e as roupas nos beirais ficavam rijas como postas de bacalhau. Confesso que havia alturas que ficava amedrontado, mas essas lembranças perduram dentro de mim ate hoje, como algo que jamais se apaga. Por mais que a minha infância tenha sido difícil, agarro-me a ela com todas as minhas forças, porque foram momentos únicos que não voltam mais e sonhos e brincadeiras que não se repetem. Tudo passou extremamente rápido, embora nem tudo que sonhei se realizou, mas o pouco que consegui concretizar faz parte de quem hoje eu sou. Atualmente sinto-me melancólico e deprimido ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar na vida e se penso é sempre com um leve pesar.
Olho o céu e ao longe vejo uma pequena nuvem distanciar-se tomando a forma de um cavalo alado. Desvio o meu olhar para um ponto remoto e sinto uma lagrima gélida percorrer a minha face ao repousar os olhos nas minhas recordações de infância. Instantaneamente, de súbito, sou desperto do meu devaneio por uma cena habitual: pobres desta cidade que pela manha vêm aqui repousar na relva de frente para o Tejo, perdidos entre o espaço e tempo, onde suas memórias são sempre desordenadas. Sinto profundamente que entre mim e eles não existe nada que nos diferencie. Fato que me leva a indagar se também sou um deles ou apenas um moribundo em busca de uma essência que lhe traga o verdadeiro sentido de ser e existir. Durante toda minha vida, tenho lutado contra todas as adversidades sem deixar que elas me rebaixem ou diminua a minha condição existencial para não vir a me sentir menor ou maior do que ninguém. Mais uma vez isso me leva a interrogar sobre o meu destino, sem saber se eu mesmo o escrevo ou se ele já havia sido prescrito por Deus muito antes de mim. Tento manter calma e viver cada dia como se fosse o primeiro, transformando o mal em bem e o feio em belo, mesmo que seja debaixo de muitas lutas e decepções, afinal, a vida é um só dia, porque dizem que antes de morrermos toda ela passa por nós como um filme repentino ate então nunca visto. Se isto for verdade, eu devo estar com os meus dias contados. Com tantos dissabores o que desejo é apenas partir, porem a morte não vem, mas sei que às vezes ela me observa e rir de mim, condenando-me a esta vida de errante. Desânimo e tristeza são tudo que me resta, caminho solitário por a cidade que um dia me recebeu de braços abertos, mas quem sou eu? Um homem invisível e nada mais do que isso, porque no dia em que eu partir, a terra vai continuar o seu giro e a lua entrará em quarto crescem por séculos e séculos. Cassiopeia, Orion juntamente com Vega tomaram seu curso ate que os homens as alcancem, já que a ciência se encontra em um caminho bastante avançado. Nas praças haverá crianças e velhos que juntos falarão as gerações seguintes sobre a palavra que sempre se renova. A palavra esperança. Pouco ou nada vai mudar: as rosas com o seu perfume e as andorinhas que todos os anos virão fazer os seus ninhos nos beirais sempre que chegar a primavera. Também haverá homens que terão coragem de lutar contra as desigualdades ou contra ditadores que insistirem em se levantar.
Acredito que sempre haverá guerras. A ciência se multiplicará tão rapidamente que a grande maioria dos homens não vai conseguir acompanhar tamanho progresso. Quanto à arte, provavelmente, ela será completamente virtual e pouco ou nada se fará dentro do universo cultural que se possa dizer que é algo novo. Eu, porem, voltarei ao pó, ate que um dia num ano ou século qualquer, o vento levará as minhas cinzas pelo universo e elas se juntarão a todos os que um dia partiram e juntos criaremos uma nova civilização mais racional e eqüitativa.
Bem, mais ainda estou vivo e tudo que me resta é apenas uma breve oração por meio de murmúrios e lamentos. Meu Deus deixa-me adormecer tranqüilamente, deixa-me viajar para alem das estrelas, no lugar que todo mundo acredita ser eterno. Se eu nunca chegar a ser lembrado, então que todo mundo saiba que eu fui apenas um entre tantos que tu criaste com a força do teu pulsante amor. Um dia, no lugar que se diz ser eterno, eu quero também invocar os espíritos dos grandes homens, para poder ter a força e habilidade de todos eles, a fim de compreender o porquê da minha singela existência. Tal como todos eles um dia entenderam o verdadeiro significado da condição humana: Gandi, Buda, Maomé, Luter king, Che, Jesus e tantos outros que contribuíram para o desenvolvimento e progresso das nações. Peço-te, Deus meu que nunca me desampares; vem e fortalece meu coração e em cada dia renova meu ser com toda a Tua sabedoria, da mesma forma que Tu compartilhaste com todos estes que um dia também te foram fieis e hoje habitam entre as estrelas.
Por fim faço minhas as palavras do filósofo e historiador Thomas Carlyle, que certo dia comentou: "A história do mundo é apenas a biografia de grandes homens”. Porque o resto é paisagem e nada mais do que isso.
Terceiro capitulo - PAGINAS QUE TEMPO RASGA
Divagando por entre palavras e orações, reparo que bem a minha frente o velho barco conhecido por cacilheiro aporta junto ao cais do Sodré na cidade de Lisboa trazendo consigo uma grande multidão que sai correndo apresada em direção aos seus postos de trabalho. São homens e mulheres sem rosto e cedentes por outras oportunidades, que lhes tragam satisfação pessoal. Enquanto isso, lá no alto dos céus, gaivotas sobrevoam por toda parte na esperança de poderem encontrar um pedaço de pão. Levanto-me e decido regressar ao meu apartamento, pois o frio junto ao cais tornou se insuportável. Sei que a distancia ate meu apartamento não é longa, mas mesmo assim, devido a baixa temperatura resolvo pegar um ônibus com destino a Santa Polônia. De lá subo a pé ate meu apartamento.
Eu moro na Travessa das Freiras, bairro São Vicente, no ultimo andar de um prédio que conhecemos por águas furtadas, localizado a poucos metros do Panteão Nacional. Dá minha janela, ao longe, vejo o Rio Tejo a correr lentamente e escuto o murmurar constante dos meus visinhos vindo da taberna que fica bem de frente ao prédio onde vivo. No apartamento do lado, vive um casal de idosos cujos filhos imigraram para o Canadá já há alguns anos. Um dos idosos sofre do mal de Parkinson e é terrível, pois há alturas que grita durante toda a noite sem deixar ninguém dormir. Quando isso acontece, visto um casaco bem quente e vou dar uma volta pela cidade. Adoro caminhar por Lisboa durante a noite. Suas ruas e ruelas são tão estreitas que em muitas mal passam carros. Quanto à zona do Castelo, o seu estilo arquitetônico tem um ar meio medieval e conforme os anos passaram se misturou com várias formas dando lhe deste modo um emaranhado de estilos diversificados, que chegam a confundir qualquer historiador. Em frente ao Rio Tejo encontra-se a baixa Pombalina, cuja arquitetura sofreu uma grande transformação no dia 1 de novembro 1755 devido a um terrível terremoto que arrasou toda cidade e os seus arredores. O primeiro ministro da época, por nome de Marques de Pombal, junto com arquitetos, reergueu a cidade em meio aos escombros, dando inicio desse modo a uma nova arquitetura, que foi chamada de estilo Pombalino. A Baixa, como a grande maioria das pessoas chama, tem algo de místico, pois os nomes das ruas e praças foram dados pela Confraternização da Maçonaria. Quem entende bem desses assuntos poderá reconhecer alguns dos símbolos maçônicos em diversas ruas. O bairro da Alfama e o da Moraria, de vielas e ruas bem estreitas, tem características árabes. São bairros habitados por pessoas da classe operaria. Resumindo tudo isso em uma só palavra, posso dizer que essa região é um autentico labirinto. Esta cidade oferece, para quem é apaixonado por historia, uma viagem a outros tempos.
Durante todos estes anos, nada de mal me aconteceu. Creio que é devido a minha altura e ao fato de me vestir sempre de preto. Sou um andarilho. Um ser solitário e ao mesmo tempo invisível aos olhos de todo mundo. Os meus poucos amigos me chamam de filosofo do povo. Às vezes quando nos encontramos e vamos ate o Café A Brasileira, para compartilharmos idéias ou simplesmente relatar fatos corriqueiros. Sentados à mesa nós rimos como crianças inocentes e nos embriagamos com café e mais de uma dúzia de cigarros, enquanto palavras soltas misturam-se com o azafama da velha cidade ate que o dia desvanecesse vagarosamente e ultimo cigarro se apaga. Para se ter uma vaga idéia de onde fica localizado o Café A Brasileira, é só subir a Rua Garret em direção a Praça de Camões onde se encontra as estatuas dos três maiores poetas portugueses: Fernando Pessoa, o Chiado e Luis de Camões. Muitas pessoas importantes e famosas foram freqüentadores assíduos do estabelecimento, tais como Almada Negreiros, Santa Rita, Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa entre outros, que chegaram a criar no Café a "sede" do Grupo literário do Orpheu. O estabelecimento ocupa um lugar de costumes dos lisboetas e atraiu uma clientela de numerosos políticos, tanto de esquerda quanto de direita. Gente pobre ou abastada, turistas e por fim, os que se destacam são os envolvidos com a arte: artistas plásticos, músicos, escultores, poetas e escritores em grande abundância que ali fazem palestras e debatem assuntos sobre a era atual. O Café A Brasileira com suas paredes repletas de espelhos e enormes telas de quadros dos mais consagrados artistas portugueses é um cenário ideal para confraternizações e debate de idéias.
São inúmeras e boas as recordações que guardo. As conversas de café serão sempre memoriáveis. Cada encontro é um momento único carregado de magia e novidades junto dos meus queridos amigos, dos quais falarei um pouco. O Wando é formado em psicanálise e é esta sempre a analisar o comportamento das pessoas. Incluído o de cada um de nós. Sua família é da cidade de Leiria, arredores de Fátima, e todos eles estão envolvidos, de alguma maneira, com a arte. Quer seja na produção, divulgação ou venda de obras. Quando expandiram seus negócios acabaram por vir para Lisboa e se restabeleceram definitivamente por cá. Sempre que faziam uma exposição de pintura coletiva, convidava-me a expor algumas das minhas obras no seu espaço comercial. Em meio a uma exposição e outra vendi algumas telas que percorrem parte da Europa.
O Pedro nasceu em Moçambique e de acordo com ele seus antepassados eram negociantes indianos que imigraram e se restabeleceram na África por aproximadamente dois séculos. Nos finais dos anos setenta Moçambique tornou-se independente e seus pais, assim como muitos imigrantes, vieram viver em Portugal. Dentre nós, ele é o ser transcendente que vê amor em tudo. Formado em arquitetura, ele foi o primeiro arquiteto que recebeu o premio de inovação arquitetônica do século XXI. Há também um poeta que sonha em editar o seu primeiro livro, cujo titulo: “As Vielas negras de Lisboa” levantou muitas controvérsias entre nós. Seu nome é Manoel e sua família é de Bragança.
Por fim resta falar sobre o Rodrigo. Um apaixonado por arte sacra. Tem seus sessenta e poucos anos e é restaurador. Desapontado com o rumo que a sua vida tomou. Ele não deseja mais nada da vida senão um bom prato de sopa quente sobre a sua mesa. Está sempre calado e com o olhar perdido. A impressão que tenho é que ele sempre retorna a um ponto longínquo em sua vida, quando, quem sabe, tenha sido mais feliz.
Sempre que nos reuníamos nos sentíamos interligados de alguma forma, tal qual uma bela sinfonia que precisava ser finalizada. Agora estamos todos mais velhos e dificilmente nos encontramos. A idade e a vida de cada um de nós nos obriga a recolher-nos ainda mais cedo aos nossos aposentos. A impressão que tenho é a de que a cada ano que se passa, a necessidade de descansar aumenta cada vez mais. A cidade branca já não é o que era! O seu encanto está aos poucos a se perder ou talvez seja porque uma nova geração está a surgir e a nossa, obrigatoriamente, está a chegar ao seu fim. Quanto a mim, de vez em quando telefono para saber como tem passado, mas dificilmente nos reunimos, porque eles já não têm disposição para tanto e sempre escuto, do outro lado da linha, um suspiro com um misto de lamentos e mais lamentos. Cada um deles tomou a sua própria direção e construíram pequenos impérios. Afinal, temos que preservar o império de cada de nós, para que a vida não venha a pregar uma partida. Um império mediante as capacidades de cada um é o quanto nos basta para que a vida se transforme em memórias. Meu Deus o que seria do homem sem suas memórias?
Atualmente, no meu apartamento, existe uma foto a um canto e outra noutro. Estantes com livros velhos e sobre as paredes algumas pinturas de artistas tanto consagrados como anônimos; na sala, um piano cor de mogno com assinatura de Wagner, que nunca foi estreado e uma lareira que já não se acende. As portas rangem e a torneira tem um gotejar semelhante a um toque de um relógio, que nos vai anunciando o fim de uma longa jornada. Os azulejos da cozinha e do banheiro há muito que ficaram fora de moda e as paredes, inertes, se escureceram com o tempo, dando a casa um ar de abandono e tristeza. Das muitas memórias que carrego comigo, guardo a lembrança das crianças que se fizeram homens e a dos homens que envelheceram e se foram para nunca mais voltar. A voz em cada um de nós torna-se arrastada e o gemido de uma enfermidade aos poucos nos corroei por dentro. Esta é nossa sina e a condição que esta reservada a cada ser humano, seja rico ou pobre. Tudo passa por nós, tudo se repete, por que é preciso que tudo mude para que tudo volte ao mesmo. Muitos acabamos solitários, amargos e não queremos aceitar as farpas do destino, porque tudo se torna insuportavelmente cruel. Adormecer e despertar em cada manha, eis a rotina a que estamos habituados, sem mencionar o quanto ainda está por vir, mas eu, porem, já me vejo por um fio. Nada sei e nada faço, apenas limitei-me a cruzar os braços e a cambalear perdidamente por entre vielas a falar comigo mesmo e balbuciar orações em forma de lamentos.
Penso nas bem-aventuranças descritas no novo testamento: “Bem aventurados todos os que chorão porque serão consulados, bem aventurados os pobres de espírito porque verão a face de Deus”, mas me sinto demasiadamente distante de ti Senhor. O meu coração balanceia de um lado para outro e suspira desde o pôr ate ao nascer do sol. Não tenho mais forças para ir à tua casa, nem motivo algum para sorrir. Cada manhã para mim é apenas o surgimento de um simples dia e nada mais. Sim, apenas uma manhã na qual, inevitavelmente, me perco. Sou como filho pródigo, que partiu e que teme voltar. Como uma ovelha entre lobos preste a ser devorada. Um santo que um dia se escondeu numa caverna temendo apenas a sua própria sombra. Temo teu nome, mas desacreditei no céu e no inferno. O que é o inferno, senão esta vida e o que é o céu, senão um momento único de adoração ao teu Nome? Que saudades tenho quando ia com meus irmãos a tua casa, mas um a um se apartou de mim e me tornei um verme aos olhos de todos eles. Bem aventurados os que repousam entre o silêncio e a dor, porque alcançarão misericórdia.
Um dia tive um sonho com um varão de branco, que me disse três vezes: “segue-me”. Não sei se em forma física ou em espírito, pois eu também, assim como o apóstolo Paulo, um dia vi o céu. Neste mesmo sonho, que não sei ao certo se era verdadeiramente um simples sonho, olhei e vi um outro varão de idade avançada com uma criança ao colo e falava para uma multidão: “o que faremos com este?” Tive muitos outros sonhos, mas também, como não poderia deixar de ser, tive diversos pesadelos que, conforme o passar dos anos transformaram em realidade. Embora desejei, e muito, nunca sonhei com o face do Altíssimo, mas como dizem os poetas, “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Nós os sonhadores devemos ser os olhos de Deus na terra, por mais que alguns de nós não acreditemos. Deus se manifesta através de dons que nos dispensou. Ele acredita em nós, porque sabe que é da própria natureza humana se aperfeiçoar através dos seus erros. O homem erra para apreender a perfeição. É através desse processo que o amor se solidifica e passa a ter um sentido mais plausível e menos abstrato.
Descobri também que é exatamente este ponto, que traz insegurança e desequilíbrio a política e a religião. Certa vez, em algum ponto da bíblia, eu li estas palavras: “não precisais que vos ensinem nada, o mesmo espírito que esta em Mim, mostrará o caminho e porá em vós palavras que nunca foram pronunciadas”. Acredito nisto, mas sei que muitos anseiam por deturpar a verdade, influenciando os de consciências fracas, a não se sentirem no direito a vida eterna devido a certas franquezas que cometeram. Estes porem não entram nos céus nem os deixam entrar. São pessoas detentores da verdade, que a ocultam deliberadamente para tirar proveito dos mais fracos.
Enfim! Palavras? Levem-nas o vento e as ações que venham elas do mar em barcos solitários, por entre tempestades. Elas darão à costa no dia que ninguém espera ou no ano que nunca se escolhe. Os profetas, os sábios e todos os que muito ensinam sabem que serão sempre desprezados; sabem que são poucos aqueles que entendem a sua voz ou cântico, afinal, eles falam a língua dos anjos; a língua que só os corações generosos poderão entender. Não instruo a minha alma com meras palavras, nem falo o que não conheço. Na verdade tudo está dentro de mim, como um espelho que se ergue e reflete a luz do sol. Por ti Senhor, há muito que também anseio, mas nestes últimos dias eu me encontro como um espelho quebrado, que nem mais forças têm para se erguer. Houve alturas na minha vida que julguei ser a voz dos cansados ou cântico dos abatidos, mas meu cântico se mistura com muitos cânticos. Hoje ele é triste e desfalecido. Poesia urbana e traços nervosos de um cotidiano a que me habituei, quando volta em meia tudo em mim se desmorona como um castelo de areia junto ao mar. Oculto o meu rosto entre as pernas e fico a chorar em silencio por longas e longas horas. Oh Deus, quantas e quantas vezes me vejo a meditar! Sempre que as azafamas e os dissabores me assolam eu vou ao desespero e me refugio dentro de mim. Tem sido assim os meus dias, entre meditações e sonhos inacabados. Não consigo romper com o meu passado, nem anular minha existência, sou demasiado covarde para tirar a minha vida. Esse pensamento me faz recordar que certa vez, um dos meus saudosos tios me disse que não temia a morte, mas sim o sofrimento. Com os seus setenta e poucos anos adquirira uma enfermidade maligna e seus últimos dias foram de grande tribulação e dor. Recordo-me que não pude estar presente, ele vivia em Gutemburg na Suécia e só soube da sua morte meses depois, quando recebi uma carta de um estranho a relatar a sua morte e a dizer que ele tinha feito um testamento e todos os seus bens passaram a pertencer a ele. Ainda tentei reivindicar, mas foi tudo em vão, já que o tinham obrigado a assinar o testamento. A meu ver acho que usaram de má fé. Bem, pensei comigo mesmo, este foi o meu ultimo elo que me ligava a parte da minha família na Suécia. Hoje só somos apenas dois eu e meu filho. Como disse, a minha família da parte paterna eram da Suécia, da cidade de Gutemburg, o meu pai dizia sempre com um sorriso nos lábios que éramos descendentes de vikings e desse modo, todos eles foram marinheiros, mas eu sempre gostei de ficar em terra firme.
O meu pai, numa de suas muitas viagens, veio a Portugal e conhecera a minha mãe num bar alterno. O resultado estava à vista, eu e minhas irmãs somos como frutos deste acaso. Ele estava sempre ausente, viajando por todo mundo, ate que numa de suas muitas viagens nunca mais voltou. Morreu em Paris, devido a uma cirurgia mal sucedida. Quanto a minha mãe, nunca tivera o privilegio de vê-la. Dela apenas tenho uma velha foto preta e branca dos anos 70 que carrego comigo dentro da minha carteira.
Vivi em um orfanato toda a minha mocidade, ate que atingi os 18 anos e fui lançado na selva urbana. Por ter poucos estudos, fui obrigado a entrar no submundo dos que anseia por sobreviver. Podia ter cruzado os meus braços; me encostado a um canto para nada fazer ou ter me tornado um marginal, mas devido à rígida educação que tive acabei por adotar esse mesmo sistema no meu modo de vida. Talvez a vida de cada um de nós tenha este principio: o de escolhermos um rumo e seja qual for ele, indiscutivelmente, essa será a nossa vida. Podemos prever em parte alguns deles, como o rumo da decadência; das paixões ou da dignidade. Tentei o ultimo em meio a um manto de lagrimas e suor, e fui trabalhar como servente de pedreiro nas obras por aproximadamente de dez anos. Era um trabalho forçado, pois a grande maioria dos empreiteiros pagava mal e eu nunca fazia descontos para o estado. Recordo, com certo pesar, de cada inverno que passei. Era na verdade uma vida dura, pois todas as madrugadas eram cinzentas e as conversas sempre disparatadas. Lamentos constantes que se misturavam com sonhos impossíveis de se concretizar. Às vezes no silencio da noite interrogava-me se tudo isto era em vão e por mais que me interrogue, pouco ou nada saberei sobre esta minha existência ou esse modo de vida a que me sujeitei. Comer viver, eis o ciclo vicioso que já estou habituado. A vida para mim é comparada a uma corrente que contem em uma das pontas uma ancora que por sua vez nos aprisiona no fundo de nós mesmo. O mar é comparado a portas de abismos que nos traga e nos cega de modo que só enxergamos uma densa e vasta escuridão. Quando fecho os olhos e fico em silencio tudo a minha volta é escuro. Isto me assusta e me obriga a repensar a minha existência aqui ou em qualquer outro lugar. Eis o resumo de cada um de nós: palavras e atos que se perdem na virada do tempo, como folhas de antigos jornais que o vento leva para longe.
O LADO OCULTO DA ALMA
Conheci uma senhora que em seus sonhos se debruçava sobre uma ponte para ver um abismo em forma de rodopio, porque ele a hipnotizava e induzia-lhe a entrar na sua dimensão. Em uma de suas margens, por nome futuro, havia um grande sol que refletia atrás dela,, na sua sombra, toda a trajetória de sua vida. Um mundo só seu, onde ela podia ver todos os acontecimentos vividos e analisar os bons e maus momentos enfrentados. Compreendi que o lugar exato em que ela se encontrava, não era nada mais do que o momento presente da sua existência e que o abismo, era apenas um momento de fraqueza pelo qual ela estava passando. Es a comparação da nossa vida, es os três tempos num só, do qual o presente em cada um de nós fica suspenso quando paramos e dificilmente encontramos forças para continuar.
Conheci também uma outra pessoa que vivia dentro de si mesmo, perdido num labirinto repleto de grandes prateleiras, aonde se amontoavam milhares e milhares de livros carregados de pó. Este porem, durante toda sua vida, tentou compreender a existência humana e tudo que era possível se avaliar, tanto no lado visível como no oculto. A vida deste foi sempre em beneficio de si mesmo. Morreu jovem e nunca chegou a compartilhar seu saber com mais ninguém alem de si. Isolamento e desespero são as duas palavras que sempre vinham primeiro na sua vida e durante todo o seu peregrinar elas lhe foram uma constante companheira. Se algo descobriu em vida, ninguém nunca o soube, pois nu veio e nu se foi.
Quanto a mim, apenas posso dizer que os meus sonhos são sempre iguais. Ora vejo um homem como se estivesse perdido num deserto, ora vejo a minha própria sombra a cobrir o mundo. Todos têm sonhos intransmissíveis e cada um de nós transporta a força de um acaso em si, que certamente já foi pré-determinado, porque o sonho comanda a vida e Deus quer que o homem sonhe, por uma simples razão: o mundo se alimenta de cada um de nossos sonhos, assim como nós nos alimentamos do que o mundo nos dá.
Nós artistas, não sei se todos, mas creio que a maioria, sonham acordados. No metrô, no ônibus, num café ou praça publica, imaginamos o interior de cada indivíduo que passa por nós; é como se fossemos capazes de penetrar dentro das pessoas, sentido os seus receios e medos. Uns chegam a visualizar a áurea, outros nada vêem, mas conseguem se sensibilizar e retratar o mais oculto dos sentimentos. Quanto a mim, vejo o que ninguém deseja ver ou sentir: a dor e o sofrimento da alma humana, as vozes que nos perseguem, os problemas que nos abatem quando espíritos contrários nos levam a cometer barbaridades. Não podemos culpar o invisível, mas ate que ponto o ser humano esta preparado para lutar contra o que não vê? Quando era jovem adorava desvendar os caminhos do ocultismo, tentar compreender a morte ou que esta além dela. O invisível é a última das fronteiras que o ser humano terá que atravessar. Não podemos viver num mundo materialista e ficarmos indiferente ou ignorarmos os nossos sentimentos. Há muita gente capaz de ver, sentir e viver muito mais o transcendente do que o real. Indiscutivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que está oculto se revelará e será posto à luz do dia, para bem ou para o mal da humanidade. Eu tenho uma visão que vai bem mais além dos meus olhos físicos, pois também consigo enxergar com o meu olho do espírito, conhecido por muitos como terceiro olho. Por ter uma visão ampla e percepção bem mais apurada, já fui, inúmeras vezes, tachado de louco pelos ignorantes da nossa “civilização”. Ate mesmo alguns amigos tinham receio de mim das minhas conversas metafísicas. Sempre gostei da leitura proporcionada pelos livros de Nostradamus, com as suas profecias futuristas, o livro de São Cipriano, a Bíblia com todos os seus mistérios apocalípticos e, por fim, a cabala que contem em si a chave para uma compreensão mais amplificada do significado da vida. Tudo o que era místico me maravilhava. Quando se é jovem só queremos chamar atenção e, geralmente, buscamos qualquer artifício para isso. Eu não fui diferente, se não tinha um argumento, não me calava, repensava e formulava um conceito que não ia longe do real, pois, como falei anteriormente, tenho uma percepção ampla. Qualquer argumento é a base para a construção do futuro. O que procuramos é o que sentimos e acreditamos ser possível concretizar. Foi pensando assim que desenvolvi o meu lado interior e também conseguia ajudar algumas pessoas que cruzavam o meu caminho, mas o medico dificilmente se cura assim mesmo, ele vive entre o mundo que desbrava e o mundo que contem enigmas. Assim como as profecias não são para o profeta, mas para quem ela é dirigida.
Certo dia, há muito tempo atrás, alguém me disse: “ você será um conselheiro”. Hoje me interrogo acerca de quem me aconselharia e de como é difícil receber um conselho. Na verdade é sempre tão complexo por em pratica as palavras de um estanho. O povo diz e com razão: faz o que digo e não o que eu faço. Ignorar ou viver é uma das possíveis opções de sobrevivência.
Com a barba por fazer e as minhas roupas escuras, afasto propositadamente todo mundo, para que a minha vida seja mais tranqüila. Caminhar no escuro ou ficar em silencio, morder os lábios para olhar o céu noturno, esperando que uma estrela cadente passe e traga uma nova mensagem. Por que será que ninguém mais observa os céus? A maioria dos homens cansou de sonhar e não escutam mais o cântico dos pássaros nem olham para o companheiro que viaja ao seu lado. Eles adormecem de frente para televisão e assistem noticias desagraveis vindas do mundo inteiro, pois aonde quer que o homem esteja, habitará sempre violência e conflitos. Suas noites surgem sem forma ou cor. Ate que ponto o ser humano conseguira agüentar a sua própria decadência ou ate aonde vai a sua loucura e solidão? A insuportável monotonia é o suficiente para que cada um de nossos sonhos se transforme em pó, porque viemos do pó e para ele retornaremos. Somos seres indiscutivelmente mesquinhos, duvidamos de nós mesmos, cruzamos os braços para nada fazermos, mesmo que tenhamos em nós o poder de agir. Rimos por entre a escuridão, em silencio, e anulamos a nossa existência dando um fim trágico as nossas vidas, afinal, adoramos tragédias. Não conseguimos caminhar sem rirmos dos que caem em desgraça, porque este é o pão nosso de cada dia e diante de tais circunstancias é difícil ficar calado, principalmente, quando nossas vidas se encontram estagnadas.
Dizemos que temos fé em Deus e o amamos, mas poucos compreendem o que quer dizer fé. Pensando bem, o que é mesmo a fé? Constantemente cremos no invisível e o amamos porque não o vemos, mas todos aqueles que nos são próximos, nós os desprezamos. Jesus disse “tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estive preso e nunca me visitastes”. Só hoje que vim a compreender as suas palavras, pois a minha dor esta diante do que observo constantemente. Como é fácil amar o que não vemos e difícil amar o que esta patente aos nossos olhos. Nos enganamos quando dizemos que amamos a Deus, mas esta é a fé dos homens. Este também sou eu, porque também vivi e me fiz amado, mas estou sempre a por em causa a palavra amor. Posso dizer que já ergui os meus braços aos céus, que já subi num púlpito e deixei Deus falar por mim. Vi profecias se cumprirem e sinais do céu a cercar os meus caminhos, mas hoje vivo entre as trevas, como um forasteiro que perdeu seu rumo. Não sei se duvido ou apenas me limitei a ficar em silencio, mas acho que me perdi em um determinado momento da minha vida. Acho que foi quando senti que todo meu empenho diante dos muitos problemas que tive que enfrentar era em vão. Talvez tenha uma missão na Terra, mas estou tão cego que nem diante do espelho consigo me enxergar.
Entre um emaranhado de pensamentos, levanto os meus olhos para o céu e fico perceptível ao que esta ao meu redor: as sombras noctívagas da noite começam a se formar e a lua em quarto minguante surge triste entre elas. A vizinha do lado chora a morte do seu amante. No outro lado da rua, em um apartamento de frente para o meu, observo que o único sinal de vida vem de uma das janelas cuja luz tremula reflete a sombra de um poeta em desespero, debruçado sobre um velho piano que eu jamais o ouvira a tocar. Penso no poeta e recordo que um dia li: “Seja qual for o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim”. Existem palavras que são eternas e outras que são apenas palavras que nenhum efeito em nós provoca. Se tivesse que escolher entre ser artista plástico ou poeta, escolheria ser poeta. Conhecendo eu cada letra daria ao mundo coisas sempre novas ou talvez indecifráveis. O poeta por natureza é um ser fingido. Ele troca o sentimento por palavras em forma de um código só seu, relatando ao mundo segredos da sua própria alma sem que alguma vez alguém os descubra. Infelizmente eu sou um pintor e nada mais do que isto. As minhas telas, há anos, se encontram em um canto da sala e quando me atrevo a escrever um poema, ele é tosco. Falta-me talvez uma musa ou deusa amável em meus sonhos. Faltam-me tantas outras coisas que só os poetas conhecem. Por entre a meditação, acendo um cigarro e fico de novo como perdido na madrugada, enquanto os meus olhos se perdem e a minha mente procura compreender cada uma das palavras que um poeta tenta tirar de dentro si. Palavras vindas do coração. No ar paira uma musica de Johann Sebastian Bach que envolve todo meu apartamento. Paixão segundo São João, aflorando em mim um sentimento de nostalgia e trazendo lembranças de outros tempos. Amores fracassados, amigos que já partiram ou colegas que abracei um dia e nunca mais os vi. Enquanto isso, o meu semblante cai, uma das minhas mãos vai encontro do meu rosto e eu revivo novamente todas as lutas que travei; sonhos incompreendidos que não sei bem aonde me levaram. Acabei só, entre quatro paredes repletas de estantes com livros velhos que acumulei ao longo da vida. Uma foto de um rosto que ninguém mais se lembra e outra de um antepassado que nunca vi. Tudo que tenho está velho e cheira a mofo. Para onde quer que eu dirija os meus olhos tudo se transforma em nostalgia. Saudade e fado duas palavras verdadeiras para se descrever a minha condição como ser humano.
Quarto capitulo - PAGINAS QUE TEMPO RASGA
Pela manha a campainha tocou quando ainda me encontrava deitado e fiquei surpreendido, pois já faz algum tempo que não recebia uma visita. Era um desconhecido que vinha da parte do Pedro para me pedir que lhe fizesse um pequeno retrato da sua filha. Fiz lhe saber que não era retratista e que o meu estilo não ia muito ao gosto dos fregueses, mas ele surpreendeu-me, dizendo que queria algo original, coisa que atualmente não e muito comum. Sendo assim resolvi aceitar, mas com essa condição. Ele ficou por ali a remexer algumas de minhas telas e soletrando palavras desconexas, que me soaram como um elogio. Em um determinado instante ele mencionou que um dia destes tinha estado numa casa de leilões e que num dos lotes havia uma pequena tela da minha autoria datada de 1997. Indaguei sobre o lote em questão e qual não foi a minha surpresa quando mencionou que pertencia ao filho do senhor Campelo. Por incrível que possa parecer ela tinha sido arrematada por um bom preço. Enquanto ele falava, eu pensava comigo mesmo que um santo deveria ter caído do altar nesse dia, pois a venda de uma obra em leilão me pareceu um milagre, porem não fiquei muito surpreso, afinal já nada me surpreende tanto hoje em dia. Tudo é possível e o tempo geralmente se encarrega de nos pregar certas partidas. Antes de sair ele comprou-me duas telas, que eu havia pintado há mais de dez anos e pagou logo em dinheiro, o que não foi nada mal. Santo Deus, porque será que estas coisas só acontecem quando estamos no fundo do poço? Mil euros? Uma raridade! Pelo que me deu a entender ele já vinha mesmo desponto a comprar alguma coisa. Em meio a uma frase ou outra acrescentou que sua esposa possuía uma galeria de arte no chiado e que fazia questão de ter os meus trabalhos expostos. Em outros tempos ate teria me entusiasmado, entretanto, após inúmeras decepções e experiências negativas com expositores, apenas senti desprovido de qualquer sentimento, embora desta vez me sentisse agradecido pelos quadros que ele comprou, devido ao montante que recebi.
Para falar a verdade, vida de artista não é fácil, as dividas se acumulavam rapidamente, contudo, já que não posso saúda-las todas de uma vez, vou aproveitar a oportunidade para mandar consertar a minha televisão, que se encontra avariada já há algum tempo. Com o resto do dinheiro pago as despesas que estão em atraso e abasteço a despenca e pouco ou nada vai me sobrar.
Depois de ele ter saído fiz a minha toalete e dirigi-me ao Largo da Graça para tomar o pequeno almoço, ou devo dizer café da manha? Já não sei ao certo! Como estava há chuviscar um pouco, vesti a gabardine e segui meu caminho. Do meu apartamento ate o Largo da Graça são apenas 10 minutos e no percurso posso rever os rostos dos que por mim passam e que são sempre os mesmo. Isso geralmente acontece quando ficamos muito tempo em um determinado lugar. Como exemplo posso citar a garçonete que trabalha no café Sabores da Graça. Na época que ela veio trabalhar para o café tinha aproximadamente vinte e poucos anos, era uma jovem lindíssima, sempre alegre e pronta para tudo. O tempo passara por ela como um relâmpago. Casara, tivera filhos e o seu rosto tornou-se pesado, assim como todo seu corpo. Hoje em dia nunca sorri e dificilmente diz bom dia para os clientes. Parece que a vida não lhe trousse o que ela tanto esperava. Havia também um senhor que ia todas as manhas a esse mesmo café, assentava-se sempre na mesma mesa, fumava o seu cigarrinho, pedia meia de leite com uma torrada e enquanto comia, lia o jornal “A bola”. Como sua idade já era bem avançada, um dia a sua mesa ficou vazia e outro tomou seu lugar, dando assim inicio a outra historia dentro de tantas historias que a cidade esconde.
O que me leva a freqüentar esse estabelecimento é que na parte de baixo existe uma pequena fabrica de confeccionar bolos e pães e é por esse motivo que sempre que possível venho aqui. Tudo é fresco e os preços estão sempre em conta. Sento-me em uma das mesas disponíveis e a garçonete serve-me uma meia de leite bem escura e dois pasteis de nata. Por ali fico aproximadamente duas horas a mais a rabiscar alguns apontamentos no meu diário.
No que diz respeito aos meus diários, tenho vários em casa, preenchidos com palavras soltas e vagas, bem como alguns desenhos do meu cotidiano. Rostos de amigos ou de pessoas estranhas, mas que sempre apresentam sobre suas feições algo que me cativa. Desenhos de recantos ou ruas de Lisboa, assim como de seus edifícios. Nas minhas muitas viagens levava sempre comigo um ou dois cadernos, mas infelizmente muitos deles perderam-se e outros fui oferecendo aos meus amigos e ao meu filho. A minha amiga Sara Vargas que atualmente vive em Espanha, na cidade de Cadiz, que sempre que me visita leva um ou dois dos meus diários com o pretexto de ler. Se eu a deixasse bem que ficaria com todos eles.
O mesmo acontece quando vou ao Café Nicola e ao Café A Brasileira. Sempre que faço um desenho, tenho por habito oferecer aos que se assentam ao meu lado e por esse mesmo motivo é que tenho uma coleção de pequenos desenhos espalhados pelo mundo todo, devido à quantidade de turistas que anualmente visitam esses tipos de estabelecimentos. Fazendo bem as contas ate que não me posso queixar. Mesmo que tenha oferecido alguns dos meus trabalhos, também vendi ao logo da minha vida muitas telas, mas sempre por preços risórios e para ser franco não tenho habito de me prender a nada, afinal, estou sempre a mudar de um lugar para outro. Só na cidade de Lisboa já devo ter estado em milhares de apartamentos ou quartos, já que tenho um pequeno problema comigo: canso-me depressa de tudo e de todos. Se não parto para outro lugar acabo por entrar em depressão.
É por isso que ninguém nunca sabe aonde vivo, a não ser que algum amigo de longa data me encontre casualmente, ai sim, deixo ficar o meu contato com ele e seja o que Deus quiser. Há duas coisas que levo sempre comigo: um lápis e um caderno, pois nunca sei o que pode surgir. Adoro ser surpreendido pelas pequenas coisas da vida. Um rosto que se diferencia de tantos rostos, uma arvore ou um edifício a cair aos pedaços, tudo isto para mim tem sempre algo de novo. É como escrever um poema ou receber uma dádiva dos céus. Desenhar para mim tornou se uma terapia que me distrai e ajuda-me a relacionar-me com todos sem que me envolva diretamente nas suas vidas. Conheço todo mundo e ao mesmo tempo não conheço ninguém, sou o que se pode chamar de um andarilho, que ama a liberdade e que ao mesmo tempo vive aprisionado dentro de si mesmo. Cada pedra desta cidade me pertence. As ruas, avenidas, bares, cafés, galerias, salas de teatro e centros comercias. Tudo é meu e eu não sou de ninguém. Ora vivo numa cidade ou em outra, mas Lisboa cativou de tal forma que acabo sempre por voltar aqui. A cidade branca como todo mundo a chama, com seus casarios e bairros cercado de ruelas estreitas em forma de labirinto, são para os meus olhos um poço sempre cheio de surpresas. Recordo-me que quando cheguei aqui no ano de 1992, se não me falha a memória, aproximadamente no mês de setembro. Nessa altura fui viver para o Barreiro, precisamente no Vale da Amoreira, na margem sul do Tejo. Lembro-me que tinha que apanhar o barco para chegar ao meu posto de trabalho, localizado em Lisboa. Meio ano depois acabei por me mudar para a capital e por aqui me tenho mantido ate ao presente momento. Exceto em alguns momentos instáveis da minha vida, que tive que sair daqui e viver em outros lugares, na esperança de encontrar alguma oportunidade melhor. Sendo assim passei algum tempo em Coimbra, Aveiro, Leiria e Porto entre outras cidades que já não me recordo no momento. Penso que se recordasse, ainda teria muitas outras para mencionar, localizadas ao redor do mundo. Em especial as grandes metrópoles do Brasil. Em cada uma dessas cidades eu vivi grandes historia que me marcaram profundamente. Histórias de amor e de grandes amizades, que me afirmaram singularmente o significado do verdadeiro existencialismo humano, pois uma grande vida é composta de pequenas partículas sobrepostas na formação de uma inesquecível experiência. Com estas experiências fiquei convencido de que o homem que nunca tenta uma ou duas mudanças em sua curta vida, jamais poderá compreender a si mesmo. Conheci também indivíduos que nasceram e sempre viveram na mesma cidade sem nunca terem ido a parte alguma ou ao menus conhecido algo de novo. Viviam presos na mesmice da sua própria ignorância e fechavam os olhos para a vasta imensidão que os cercavam. Talvez eu esteja errado ou quem sabe a linha traçada do destino desses indivíduos se limite a isso mesmo. Nascer e viver num só lugar é o quanto lhes basta para que sejam felizes. Se é que são mesmo felizes!
Quanto a nós artistas, me desculpem mais uma vez o plural. Somos autênticos andarilhos e também eternos românticos, deste modo não é de se espantar que Picasso tenha casado por varias vezes. Enfim, es um assunto demasiado delicado para se aprofundar. Quanto a mim, que direi dos meus amores? Já não lembro quantos ou quais foram, mas sei bem como eram. Porque a verdade é que eu esqueço facilmente de nomes, mas jamais esqueço uma fisionomia, pois a registro de tal forma dentro de mim, que por mais que eu queira, tenho dificuldades para esquecer. Quando estou com um grupo de amigos, evito falar sobre este assunto; sou demasiado piegas e choro por tudo e por nada. As coisas do coração acabam comigo da noite para dia, abalando-me por semanas a fio, mas recordo-me que alguns anos atrás que cheguei a sentir uma fixação por uma jovem de 21 anos, que me marcou de tal forma, que ate hoje cenas vividas por nós dois vagueiam deliberadamente pela minha memória, sem me pedir licença ou permissão. Conheci-a na primavera do meu ultimo ano de casado. Por essa altura éramos apenas bons amigos, mas devido ao carinho que nutríamos um pelo outro, essa amizade depressa se transformou em algo muito mais profundo. Seus cabelos longos e negros contrastavam com seus olhos azuis fatais, ela era para mim como uma Vênus pronta a despertar de um longo sono. Inteligente, amável e sempre disposta a enfrentar todos os obstáculos da vida. Ela me seduzira como ate então nenhuma outra mulher jamais conseguira. Há quem diga e com razão que todos os artistas têm uma musa. Para mim ela fora essa musa e ate hoje permanece como um ícone escondido dentro de mim e por isso a retratei por varias vezes em algumas das minhas telas. Era como se cada parte do seu corpo fosse em parte o meu próprio corpo. Não sei se foi amor ou se foi apenas uma paixão efêmera, falo apenas o que o meu coração me diz: que por mais que os anos passem, ela será insubstituível. Após um período de dois anos tudo acabou entre nós, pois meu temperamento não ajudava em nada, sou como se diz: calmo por fora e completamente agitado por dentro. Um defeito que ate hoje não consigo superar. Deve ser por isso que não me envolvo com mais ninguém. É de lamentar que a grande maioria das pessoas afirmem que nós os artistas não sabemos amar. O que não é verdade.
A palavra amar para nós é tão profunda, que só a prenunciamos quando acreditamos que verdadeiramente a temos alcançado. Atualmente compartilho uma relação com uma jovem do Leste Europeu, que conheci há dois anos atrás. Um sonho de mulher. Loira de olhos verde mar, com altura de 1.80 e deslumbrante. Mais do que uma linda mulher é também uma boa amiga. Tem dois empregos e uma filha que vai pela primeira vez para escola. Quando ela esta de folga liga-me, pois se preocupa comigo e ate sei que nutre um carinho muito especial por mim. A historia da sua vida e uma das mais tristes que tenho ouvido. Quando ela tinha seus 14 anos vinha a caminho de escola para casa e se defrontou com um grupo de homens que a raptaram e a levaram a força para a prostituição. A drogavam durante todo o tempo que esteve aprisionada e abusavam dela por horas a fio ate que um determinado dia conseguiram fugir com ajuda de um jovem que se apaixonou por ela. Ele comprou duas passagens de trem com destino a Portugal e debaixo de muitas lutas conseguiram chegar são e salvos ao seu destino. Em Portugal viveram na clandestinidade, sempre com medo de ser pegos pelas máfias do leste europeu. Ela acabara por encontrar trabalho num restaurante como ajudante de cozinheira e ele fora trabalhar nas obras, mas raramente o pagavam. A vida parecia que lhes estava a correr bem, mas meio ano depois, ele caiu do terceiro andar de um andaime e ficou incapacitado de trabalhar. Sem plano de saúde a sua situação se agravou e para completar o patrão o demitiu sem lhe dar nenhuma indenização. Enquanto estava no período de recuperação a sua situação se agravou ainda mais. Uma apendicite supurou e o levou a morte por não ter sido socorrido a tempo. Por estar grávida dele, ela acabou por ser dispensada do seu emprego e ficara completamente só, em um país que lhe era totalmente estranho e temendo por ser perseguida, nunca se reunia com a comunidade, como grande parte dos emigrantes fazem. Pensava em pedir asilo político, mas temia ser deportada e essa era a ultima coisa que ela queria, pois pensava tanto em si como na criança que carregava em seu ventre. Foi por essa altura que a conheci, quando sua gestação ia no quinto mês. Vivia num prédio abandonada que fazia esquina com meu apartamento e saia todas as noites, para catar os restos de comida que os grandes supermercados deitam fora. Como todas as noites, antes de me deitar, tenho habito de ficar de frente para a janela a fumar um cigarro e a ver o movimento constante dos que passam. Aos poucos comecei a ter consciência daquela situação e certo dia encontrei coragem para ir conversar com ela. Não foi nada fácil, ela era desconfiada, tímida e carregava dentro de si todas as dores do mundo. Seus olhos verde mar deixavam transparecer certa tristeza e o seu rosto encontrava-se desfigurado de tanto chorar. Eu não podia permitir tanto sofrimento e nem mesmo me sujeitar ao conformismo. Tinha que tentar fazer algo para minimizar tanta amargura! Não agüento sofrer, quanto mais ver sofrer os outros. Deve ser por isso que nada tenho. Tudo que tenho dou e se não dou mais e por que tenho tão pouco.
Certo dia consegui comunicar-me com ela em inglês, em meio a uns trocadilhos de palavras em espanhol. Disse lhe que gostaria de ajudar se ela assim permitisse. Como tenho um olhar calmo e distante, cativo todo mundo e ela não foi uma exceção. Mesmo relutante aceitou. Por essa altura trabalhava como guarda noturno numa escola e às vezes trazia comida para casa. O meu ordenado era pouco, mas não me preocupei com mais um gasto. Não importa o quanto tenho, sempre dou um jeito. Como um familiar meu dizia, quem faz comida para um, faz para dois ou três. É em ocasiões como esta que desprezo os que tantas vezes desperdiçam o dinheiro com coisas fúteis. Seres irresponsáveis, egoístas e esbanjadores, só pensando em si mesmos e vivem se lamentando por tudo e por nada. Nem mesmo param para por a mão na consciência e pensar em nos outros que necessitam de um mínimo para sobreviver, mas não têm absolutamente nada. Pessoas que esbanjam não sabem o verdadeiro significado da palavra sofrer, nem têm uma idéia do que esta acontecendo nas ruas por onde passam diariamente. A noção de sofrimento é obtida através de uma tela de televisão, onde vêem, do outro lado do mundo, as misérias do mundo e são ate capazes de se lamentam, mas são incapazes de dar uma esmola ao pobre que passe em sua rua. Repudio também certas atitudes dos nossos governantes quando tentam fazer caridade para com outros povos, apenas para mostrar as outras nações em redor que no nosso país tudo vai bem. Sete mil toneladas de alimentos para Sudão ou para Etiópia, dois milhões de euros para os pobrezinhos que estão na Ásia, porque ouve por lá uma grande catástrofe, enquanto grande parte do povo da sua própria nação vive abaixo da linha de pobreza, na completa miséria. Interrogo-me se estou a ser egoísta ou se na verdade estou a ver o que tão poucos querem ver. As pessoas que aqui vivem sofrem muitas privações ou estão sufocadas de dividas e mais dividas. Desempregados, desnutridos, doentes e desesperados, mas que, infelizmente, são sempre postos em segundo ou terceiro plano. Santa hipocrisia, será que os governantes deste país não tem consciência ou não podem agir face a tudo o que na verdade existe dentro das suas fronteiras? Ate quando um cego guiara outro cego?
Voltando ao assunto anterior. Falei com meu eis concunhado que é medico no hospital S. José, no centro de Lisboa e disse-lhe que precisava urgentemente da sua ajuda. Por ser um homem bom e prestativo se prontificou a tratar ele mesmo de tudo.
Meses depois, às 22h ela deu a luz a uma bela menina saudável, a qual deu o nome de Raquel. Assim que se recuperou do parto conseguiu trabalho de domestica no bairro de Alvalade. Durante o tempo que viveu comigo, acabamos por nutrir certo carinho e respeito um pelo outro. No principio, como disse, éramos amigos e nada mais, mas aos pouco a nossa relação se intensificou e daí surgiu algo bem mais forte. Infelizmente, devido ao meu temperamento e por não gostar de estar sempre no mesmo lugar, acabei por me separar dela e mudei-me para outro apartamento, mas sem que antes falasse com o proprietário do imóvel. Pedi-lhe, encarecidamente, que a deixasse viver lá sobre a minha inteira responsabilidade e a pouco tempo atrás sobe que ainda vive por lá. Atualmente sei que tem algum dinheiro no banco e que muito em breve vai abrir uma pequena butique de roupa intima feminina em Benfica.
ROUPA SUJA EM PRAÇA PUBLICA
Ainda não recebi a notificação de trabalho, mas como tenho algum dinheiro vou a Baixa e aproveito para passar na Casa Fernandes para comprar algumas tintas e telas. Como sou cliente assíduo eles sempre me fazem um desconto de dez por cento. Não é muito, mas é melhor do que nada. No primeiro andar do estabelecimento há uma senhora que admira muito a pintura e os pintores. Certo dia ela mostrou-me uma pequena tela pintada a óleo de sua autoria e eu pude identificá-la como sendo uma natureza morta. Queria saber o que eu achava sobre o seu trabalho e confesso que não foi uma das mais belas obras que já tinha visto, mas para uma amadora ate que não estava nada mal. A composição se interligava muito bem com as cores escolhidas. Era um trabalho dentro de uma linha de pensamento classificada como naif. Para quem não sabe, a pintora naif é de uma pureza genuína, pois tudo o que os pintores naif fazem, o fazem com amor. Cada detalhe e pormenor são de uma elegância que transporta qualquer espectador ao mundo da fantasia da sua infância. É lamentável que a grande maioria dos artistas plásticos e expositores os desprezem tanto. Eu pessoalmente fico indignado quando me acento num café e reparo que um grupo de indivíduos se põe a falar mal sobre os naif. Não suporto esses tipos de comentários, porque me deixam com um nó na garganta. São pessoas egoístas e mesquinhas que adoram vir para lugares públicos lavar a roupa suja.
Quando me deparo com uma situação como esta, simplesmente saio discretamente, pois jamais me deixo rebaixar ao nível deles. Quer gostem ou não pouco me importa. Quando alguns me olham de lado eu passo adiante como se nada estivesse acontecendo e por isso mesmo me puseram o codinome “anjo solitário”. Bonito nome, mas sei que o dizem para gozar com a minha cara, afinal de contas não consigo me esconder. As minhas andanças pela cidade de Lisboa fazem de mim uma personagem peculiar. Todo mundo já me viu alguma vez, mas eu nunca os vi. Caminho cabisbaixo, despreocupado e quando me acento numa praça a desenhar, os jovens se reúnem em volta de mim com o propósito de compartilhar suas aventuras e idéias. Qualquer palavra proferida por mim é escutada com tanta atenção que consigo senti-las no brilho dos seus olhos e com isso eu posso sentir que os transporto a um outro mundo e ao final dos meus relatos me preparo para a enxurrada de perguntas que se seguem, pois querem saber o porquê de tudo. Outras vezes me pedem para desenhar os seus rostos e não consigo ficar indiferente, desse modo os mando ficar em fila indiana e vou desenhando um a um. Quando pegam no seu desenho, geralmente saem correndo para casa para mostrarem e contarem a sua historia aos seus familiares. Por vezes aconteceu de algumas pessoas desconhecidas virem falar comigo, apenas para me dizer que tem um desenho da minha autoria guardado e emoldurado a um canto da casa. Eu brinco e digo: - quem sabe se um dia esse pequeno papel não vai ser um cheque? Muitos dizem que jamais se separarão dele e conversam, conversam, ate que a minha mente viaja ate casa de meus sonhos numa colina com vista para o mar e por lá fico idealizando a minha existência.
Parou de chover e um raio de sol sobressaiu por entre nuvens e atingiu meu rosto úmido. O meu cabelo está molhado, bem como todas as minhas roupas; meu caderno amoleceu e o lápis que trago sempre comigo não tem ponta. Uma pequena navalha de bolso me faz falta, embora já tenha me acostumado a descascar os meus lápis com as unhas. Na minha frente está um casal de idosos assentados num dos bancos deste jardim, lançando pequenas migalhas aos pombos que se amontoam esfomeados, esvoaçando de um lado para outro e lutando entre eles. Os pombos criam, em volta deste casal, um manto cinzento com pequenos pontos brancos. Começo a desenhar mais uma imagem significativa do meu cotidiano e fico em silêncio, absorto dentro de mim mesmo. São momentos assim que trazem alguma serenidade a minha vida.
Certo dia, conversei com um senhor de idade já avançada durante um longo tempo; contava-me com nostalgia cada momento ate então vivido. Era viúvo e tinha uma pequena aposentadoria, mas tão pequena, que mal dava para sobreviver. Sofria de reumatismo e tinha bronquite aguda, mas raramente podia comprar medicamentos, pois não tinha condições para tal. Disse-me que quando era jovem, foi viver para Angola com seus pais e que por lá abriram uma padaria. Casara se com a mulher da sua vida e tiveram sete filhos, depois veio à guerra colonial e no fim a descolonização que o obrigou a ir viver para Portugal. Por cá lhe deram o nome de retornado. Sem meio de sobrevivência acabou por ir viver com toda a sua família num bairro de lata, ou melhor, dizendo, favela, na Cova da Moura. Desempregados, tanto ele quanto sua esposa, pediram ajuda ao governo, mas só depois de dez anos lhe deram um pequeno apartamento num bairro social.
As enfermidades que ele tinha, de acordo com ele, foram devido às más condições que fora sujeito quando vivera na Cova da Moura. Era um inferno, não importava se era inverno ou de verão, pois não tinham saneamentos básicos e o lixo que se amontoavam por todos os lados atraiam ratos, baratas, mosquitos e pulgas em abundancia. Chorávamos por tudo e por nada, discutíamos porque não tínhamos pão nem remédios para dar aos nossos filhos. As assistentes sociais sempre que ali apareciam era apenas para fazerem estágios com as suas perguntas absurdas. Era sempre a mesma historia, seguida por um sorrido nos lábios e um pesar de lamento por não poder fazer nada pelas pessoas. Os anos setenta foram difíceis para todos, como ele mesmo dizia, mas com sete filhos ainda pequenos era um caos total.
A primeira a encontrar trabalho foi a sua esposa, mas para chegar lá caminhava mais de cinco km com o propósito de economizar o máximo possível para ajudar com os mantimentos de casa. Quanto ao seu marido, depois de um cansativo ano de tanta procura e com uma enorme quantidade de gente que se encontrava nas mesmas condições, ele resolveu ir em busca de um trabalho pesado devida a maior chance de encontrá-lo. Depois de alguns contatos e fichas feitas em obras, acabou por encontrar uma vaga de servente em uma construção no centro da cidade. Já tinha quarenta e poucos anos e a idade não ajudava. Todos os dias tinha dores terríveis pelo corpo inteiro, afinal durante todos aqueles anos trabalhou como padeiro e essa é uma das muitas profissões que nos desgasta bastante se não tivermos um bom condicionamento físico, mas, nos finais dos anos oitenta, tudo melhorou. O estado fora obrigado a contribuir com o bem estar dos seus funcionários e doou um apartamento a cada um dos que ali viviam, devido a uma nova lei aprovada pela comunidade européia, pois reconheceu que a situação medíocre vivida pelos seus habitantes era vergonhosa, sem mencionar que viviam em condições sub-humana. O dia da evacuação foi histórico para todas aquelas pessoas ate então tão desvalorizadas. A impressão que dava aos observadores era a de que milhares de peregrinos tinham saído às ruas para celebrar a nova fase de suas vidas. Após as suas retiradas o bairro ficou deserto e acabou por ser demolido, pois os que dali saiam jamais pretendiam retornar.
Com o passar dos anos ele envelheceu e acabara por receber uma pequena reforma do estado, por ter contribuído a vida inteira. Quanto aos filhos que tinha já estavam crescidos e ate já tinham constituído suas próprias famílias, assim também como já estavam formados e tinham seus bons empregos. Uns eram doutores e os que não eram também estavam estabilizados e ganhavam muito bem. Sabe, dizia-me ele para finalizar: fiz o que pude por eles e se não fiz melhor foi porque a vida não me permitiu, mas estou agora nesta situação precária e sem cuidados médicos, dormindo num quarto velho e sujo que fica entre o Intendente e os Anjos, só porque passei a escritura do meu apartamento para o nome de um de meus filhos. E sabe o que ele me fez? Me pôs a correr da porta para fora só porque sua esposa não me queria lá. Podia ter ficado, mas o amava e como estava velho demais para mais um desafio, desisti para felicidade dele, porque a vida dos meus filhos esta sempre em primeiro lugar. Enfim, tentei semear as mais belas rosas durante toda a minha vida, mas no final de tudo estou colhendo apenas os espinhos. Eles se esquecem que um dia também vão ser pais, que darão tudo de bom para seus filhos e que colherão apenas o que agora esta plantando. Estão cegos demais pelo egoísmo para enxergarem que precisam fazer o bem agora.
Como esse senhor, existem centenas de idosos nestas condições. Não só aqui como em todo mundo e não é preciso ir muito longe para se ouvir uma historia assim. Basta apenas perder um pouco de tempo em alguma praça, que por certo encontraremos uma ou duas historias bem similares. Deus meu como temo acabar assim! Há atitudes que nunca vou entender ou sentimentos que meu coração, por menor que seja, jamais poderá aceitar. Interrogo-me sobre estas coisas e a única coisa que entendo é que o amor esta a esfriar sobre a face da terra. Os jovens não respeitam mais os idosos. Cada um por si e nada mais existe. Quando nós artistas tentamos descrever o nosso mundo em cada uma de nossas telas, elas adquirem uma tonalidade sombria, com cores escuras e tristes. É como se um grande abismo se estivesse a formar ao redor de cada um de nós. Tudo o que temos atualmente apenas serve para nos distanciar ainda mais uns dos outros. Hoje, basta apenas um clic e tudo aparece como se surgisse do nada. Somos na verdade o produto de uma geração em que a cultura e tradição de um povo ou povos se esta a perder lentamente. Eu pessoalmente gostaria que não existissem fronteiras, mas se a falta delas nos separa ainda mais, então o que é que esta mal aqui? Recordo-me que quando vivi em São Paulo por um período de três anos, o tempo que lá estive jamais consegui fazer uma verdadeira amizade. As pessoas de lá vivem numa constante azafama, correndo de um lado para outro a procura de algo que nunca cheguei a entender bem o que era. Ate mesmo os artistas dificilmente se reuniam e quando tal acontecia era sempre tão superficial. As conversas eram uma mistura de suspiros e lamentos. É por isso que me interrogo constantemente a cerca do destino de cada um de nós, se é que realmente estamos a caminhar para algum lugar. Bem, mas quem sou eu para tentar entender ou dar respostas? Um Zé ninguém aos olhos de meio mundo e para outros talvez seja comparado a Garça Real, que pousa suas patas no lodo e no primeiro voou ela fica completamente limpa. Me vejo como um ser capaz de pisar em qualquer lamaçal e sair com os meus pés limpos; habitar dentre os piores pecadores e sair com minhas vestes brancas; conviver com qualquer tipo de pessoa, rico pobre, preto, branco sem que jamais me contamine com a soberba e o egocentrismo da raça humana. Não pense com isso que sou perfeito, pois tenho muitos defeitos, mas o meu coração é puro como o de uma criança e dentro de mim não há espaço para o ódio ou mediocridade de sentimentos mesquinhos.
Miguel Westerberg
- Miguel Westerberg
Artist plástic Miguel Westerberg - Portuguese artist who lives in São Paulo – Brazil and whose paintings have the experience and maturity of a 34-year-old painter. His coming to Brazil gave him the inspiration to create the movement “THE GLOBALIST ARTISTS”, within the purpose of rescuing the ignored and, sometimes, forgotten art by the mass communications.In his acrylic paintings he found a way to portray the inequalities of the world around him, as well as expose the occultism, abstract and mysticism existent in the particularity of each being. No matter if it is a simple object, landscape or a painted person, cause his real intention is define what seams undefined and get an explication for what is said to be incomprehensible for the most of the people. It’s relatively noticeable a mixture of paradoxes and metamorphoses in his masterpieces.
Enjoy his paitings
